domingo, 20 de abril de 2014

Tudo rima com Molejão
Ecos do JUCS!11:57 0 comentários

Por Leandro Resende

À primeira vista, Adilson “BG” é uma figura intimidadora, tanto pela elegância quanto pela cara de mau. Eram as primeiras horas da última quarta-feira (16), e ele trajava terno branco impecável, parado diante de uma porta no segundo andar do restaurante Rei do Bacalhau, em Duque de Caxias. O semblante fechado é mera fachada, mas cumpre de forma eficiente o papel de passar “respeito”, se é que esse é o objetivo. “BG”, na realidade, é dono de fala mansa e sorriso largo, e há 15 anos é segurança do grupo de pagode Molejo, atração principal do JUCS deste ano, em Vassouras. Foi ele quem previu o que a equipe de Ecos do JUCS encontraria minutos depois, ao passar pela porta que ele guardava para conversar com Anderson Leonardo e sua trupe.

- São os caras mais humildes do mundo. Não importa o público, eles fazem show igual se for para uma ou para cem mil pessoas.

Naquele dia, o Molejo de certo não encontrou o público com o tamanho e animação que encontrará em Vassouras, no dia 2 de maio. Tinha sido uma terça-feira chuvosa, e o pagofunk do Rei do Bacalhau não recebia o público que geralmente lota a casa. No acanhado camarim do grupo, baldes com água e cerveja, além dos cabides com as roupas que usariam no show daquela noite. Descontraídos, falavam sobre a polêmica final do Campeonato Carioca entre Flamengo e Vasco, disputada dias antes.

- Foi uma visão do juiz naquele momento. Erro é erro – justificava o flamenguista Anderson Leonardo, cavaquinho e voz de sucessos imortais dos anos 1990, como “Cilada”, “Brincadeira de Criança” e “Dança da Vassoura” - Mas uma coisa que você tem que saber é o seguinte. Eu, Anderson, sou Flamengo, mas o Molejo é de todos os times.

Claumirzinho endossa o coro do amigo. O percussionista rubro-negro lembra do “Samba Rock do Molejão”, escrito por ele e Anderson, mas cantado pelas torcidas de Atlético – MG e Vasco até hoje.

- Em 1999, o Edmundo foi lá e fez o “colé, colé”, depois de marcar gols em cima do Flamengo. Torcíamos para ele fazer mais gols e comemorar mais ainda, era bom para gente – relembra, por mais incoerente que possa parecer um flamenguista torcendo para um vascaíno.

Essa tipo de postura também vai de encontro com outro aspecto do Molejo apontado por “BG” antes da entrevista: segundo ele, trata-se do único grupo de pagode querido por todos os jogadores de futebol, “velhos e novos”. Os velhos, da década de 1990, são amigos da época do auge nas paradas de sucesso “uma época de ouro”, segundo Anderson Leonardo. Os novos se aproveitam de um “revival” recente de um pagode não tão antigo assim, mas que trouxe Só Pra Contrariar e Raça Negra de volta ao noticiário, por exemplo. Dentro dessa onda, o Molejo agradece ao público universitário pelo retorno ao sucesso.

- O Molejo nunca parou, mas ficamos longe dos grandes centros. Foi justamente essa galera universitária que foi nos buscar e deu uma força para gente, pedindo para irmos tocar nossas músicas antigas. Nós já temos festas de formatura para tocar até 2019 – comemora Anderson.


A gratidão não fica só no discurso: basta olhar nas capas dos álbuns mais recentes da banda para encontrar o selo “Pagode Universitário”. Eles relatam que já foram em chopadas e competições universitárias por todo o Brasil, do interior de São Paulo a Goiás, passando pelo Espírito Santo e Minas Gerais. Hoje, já estão calejados e cientes da rivalidade sadia entre diversas faculdades, e esperam não passar por eventuais constrangimentos.

- O cara já mandou eu falar um “chupa fulano”, para uma outra faculdade. Aí fui numa outra, tinha me esquecido, falei um negócio diferente.. Foi uma confusão. Mas a gente agradece a todas – resume o cantor.

Recentemente, o Molejo gravou DVD no Barra Music, casa de shows do Rio com estrutura certamente superior a de muitas chopadas e festas universitárias pelas quais a banda já passou. Para Claumirzinho, isso não é um problema.
- A gente tem noção do esforço feito para que a gente tivesse ali. Eles são as estrelas da festa, eles que escolheram o Molejo para aplaudir – explica. Anderson completa – Os caras fazem esse esforço e a gente vai reclamar de uma iluminação que não está boa? Além do mais, tão pagando nosso din-din...

Se a relação do Molejo com o ambiente universitário lhes permitiu o uso justo do rótulo “Pagode Universitário”, a relação deles com o esporte, antes restrita às canções de arquibancada, ganhou novo fôlego neste ano. Durante a disputa das Olimpíadas de Inverno em Sochi, na Rússia, “Dança da Vassoura” virou uma espécie de Hino Brasileiro do Curling, modalidade esquisita que consiste em empurrar um disco usando uma espécie de rodo sobre o gelo, mas que não decide nada no JUCS, então só a história importa, não as regras.

- Um menino do site Globo Esporte fez uma paródia com a música, e isso tomou uma proporção grande. A matéria ficou show, e acabamos nos tornando os divulgadores do curling – relembra Anderson, seguido pelas reclamações do congelamento dos pés durante as gravações das matérias, feitas pelos outros integrantes.

Com a mesma cordialidade com a qual nos receberam, o Molejo pediu licença antes de encerrar o papo, não sem antes gravar uma convocação para os Jogos e receber uma camisa da UFRJ de presente. Muito mais fácil que rimar com JUCS, tudo rima com Molejão. Até Vassouras! 

Edição do vídeo: Daniel Vinagre
Câmera: Gabriel Padilha e Daniel Vinagre
Áudio: Marcus Padilha e Pedro Souto
Apoio: Miler Alves 
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